Desafios do diagnóstico tardio de TDAH em adultos
Estigma, sintomas pouco reconhecidos e dificuldades na avaliação contribuem para que muitos convivam anos sem compreender a origem de suas dificuldades diárias.
Emilija Milenkovic
De acordo com a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA), 5,2% dos adultos entre 18 e 44 anos e 6% das pessoas com mais de 45 anos convivem com o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Contudo, muitos casos permanecem sem identificação por anos.
Durante muito tempo, a condição foi associada quase exclusivamente à infância. No entanto, o aumento das discussões sobre saúde mental e neurodiversidade tem ampliado a compreensão de que o transtorno pode persistir na fase adulta, trazendo impactos para a vida acadêmica, profissional, social e emocional.
O debate sobre a neurodiversidade e a saúde mental na vida adulta
Em muitos casos, as pessoas chegam à vida adulta sem diagnóstico. Isso ocorre porque os sinais nem sempre são facilmente identificados ou porque aprendem a mascarar dificuldades relacionadas à atenção, organização e planejamento.
Como consequência, passam anos acreditando que características como distração constante, esquecimentos frequentes ou dificuldade para concluir tarefas são falhas pessoais. Os impactos podem ser percebidos em diferentes áreas da vida.
Tarefas domésticas simples podem se tornar um desafio devido à dificuldade em manter o foco ou concluir etapas. Nos relacionamentos, esquecimentos, impulsividade e dificuldades de comunicação podem gerar conflitos.
Além disso, um estudo publicado na revista DCS identificou a disfunção executiva como uma das características mais marcantes em adultos com TDAH.
O comprometimento dessa função cognitiva afeta diretamente a capacidade de planejar, organizar e priorizar tarefas, gerando impactos na estabilidade profissional, nos relacionamentos interpessoais e na qualidade de vida.
A ausência de diagnóstico pode afetar a autoestima e a saúde mental. Muitas pessoas passam anos sendo rotuladas como desorganizadas, preguiçosas ou desinteressadas, internalizando esses julgamentos. Além disso, a falta de compreensão sobre a própria condição pode dificultar a inclusão e a permanência em ambientes de estudo e trabalho.
Os principais desafios do diagnóstico tardio de TDAH
Um dos principais obstáculos é que os sintomas costumam se manifestar de forma diferente da observada na infância. Em vez da hiperatividade mais evidente, muitos adultos apresentam dificuldade para estabelecer prioridades, organizar tarefas, administrar compromissos e manter a atenção.
Porém, os sinais frequentemente são confundidos com ansiedade, depressão, estresse crônico ou esgotamento profissional.
Esse cenário foi destacado pelo estudo da revista DCS, que apontou que o reconhecimento tardio do transtorno está associado ao subdiagnóstico na infância, ao estigma social e à sobreposição de sintomas com outras condições psiquiátricas.
Ainda, uma revisão publicada na revista Ciência e Contemporaneidade destaca que os diferentes métodos diagnósticos apresentam níveis variados de confiabilidade, exigindo uma avaliação cuidadosa por parte dos profissionais de saúde.
O levantamento também mostra que o TDAH permanece subdiagnosticado mesmo entre pessoas que realizam acompanhamento médico e que a identificação dos casos pode ser dificultada pela escassez de instrumentos de triagem acessíveis à população.
Tratamentos e caminhos para a qualidade de vida
Embora o diagnóstico tardio possa representar anos de desafios acumulados, ele também abre caminho para estratégias mais adequadas de cuidado e acompanhamento.
O tratamento do TDAH na vida adulta pode incluir medicamentos, terapia comportamental e mudanças no estilo de vida. O uso de estimulantes, como o venvanse, quando indicado por profissionais de saúde, pode melhorar a atenção e reduzir a impulsividade. A prescrição de qualquer medicação deve ser feita exclusivamente por médico especializado, considerando o histórico e as necessidades individuais de cada paciente.
Hábitos saudáveis também podem contribuir para o controle dos sintomas. A prática regular de exercícios físicos auxilia na regulação emocional, reduz a impulsividade e favorece a concentração. Da mesma forma, uma alimentação equilibrada pode contribuir para o bem-estar geral.
Em todo caso, o fundamental é contar com uma avaliação adequada e acompanhamento contínuo.
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