O crescimento de discursos misóginos nas redes sociais tem preocupado pesquisadores e especialistas em direitos digitais e saúde mental. Comunidades associadas à chamada “machosfera”, que incluem grupos conhecidos como “Red Pill”, têm ampliado sua presença nas plataformas digitais e difundido conteúdos que inferiorizam mulheres e reforçam estereótipos de gênero.
Um levantamento recente do Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais (NetLab), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) identificou 123 canais brasileiros no YouTube que disseminam conteúdo misógino, reunindo mais de 23 milhões de inscritos e cerca de 130 mil vídeos publicados. O estudo também aponta crescimento de 18,5% no número de seguidores desses canais desde 2024, indicando a expansão desse tipo de conteúdo nas redes.
Além da disseminação de discursos hostis, especialistas alertam para os efeitos psicológicos da violência digital. Pesquisas acadêmicas sobre assédio online indicam que mulheres expostas a ataques virtuais relatam com mais frequência ansiedade, estresse, insegurança e medo de se posicionar publicamente nas redes sociais.
Segundo o advogado eleitoral Wallyson Soares, que atua na defesa da saúde e dos direitos das mulheres, o avanço desses discursos nas redes sociais exige atenção por seus impactos na dignidade e no bem-estar feminino. Segundo ele, a violência digital não se limita ao ambiente virtual e pode gerar consequências psicológicas e sociais significativas:
“A violência contra a mulher não ocorre apenas de forma física. Ataques constantes, humilhações e discursos que desumanizam mulheres nas redes também geram impactos reais, especialmente na saúde mental. Defender os direitos das mulheres também significa proteger sua dignidade e seu bem-estar”, afirma.
Estudos internacionais sobre violência digital também apontam que ataques contra mulheres podem levar ao silenciamento de vozes femininas no debate público, reduzindo a participação feminina em discussões políticas, sociais e profissionais no ambiente digital.
O advogado destaca que o debate jurídico precisa considerar os limites entre liberdade de expressão e discurso de ódio:
“A liberdade de expressão é fundamental em uma sociedade democrática, mas não pode ser utilizada como justificativa para incentivar discriminação ou violência. O direito também tem o papel de garantir que mulheres possam participar do espaço público, inclusive no ambiente digital, sem medo ou intimidação”, explica.
Outra pesquisa conduzida pelo NetLab em parceria com o Ministério das Mulheres analisou conteúdos em redes sociais e identificou 1.565 anúncios considerados problemáticos, irregulares ou potencialmente ilegais direcionados às mulheres, além de 550 páginas e perfis responsáveis por disseminar conteúdos classificados como tóxicos ou enganosos em plataformas como Facebook e Instagram.
Os dados fazem parte do estudo “Observatório da Indústria da Desinformação e Violência de Gênero nas Plataformas Digitais”, criado para monitorar conteúdos que reforçam estereótipos, ataques e golpes direcionados ao público feminino.
Wallyson explica que enfrentar a misoginia nas redes exige ações conjuntas entre poder público, plataformas digitais e sociedade civil, além de políticas de prevenção e conscientização: “Garantir um ambiente digital mais seguro também é uma forma de proteger a saúde e os direitos das mulheres”, conclui.
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