Suplementos em gotas ganham espaço e colocam tecnologia de absorção no centro do mercado brasileiro

Com extrato líquido de Pinus pinaster, indústria nacional aposta em padronização, rastreabilidade e novas formas de entrega para ativos naturais estudados pela ciência

Por ERICA MATOS
7 Min

Suplementos em gotas ganham espaço e colocam tecnologia de absorção no centro do mercado brasileiro
André Mota

O crescimento do mercado de suplementos no Brasil tem provocado uma mudança importante na forma como a indústria desenvolve seus produtos. Se durante anos cápsulas, comprimidos e sachês dominaram as prateleiras, os formatos líquidos começam a ganhar espaço por reunirem praticidade, possibilidade de dosagem personalizada e novas estratégias de formulação.

A tendência acompanha um setor em expansão. O mercado brasileiro de suplementos cresceu 43% no primeiro trimestre de 2024 e caminha para atingir R$ 13,8 bilhões até 2030. Nesse cenário, a discussão deixa de estar concentrada apenas no ingrediente utilizado e passa a envolver também a forma como esse ativo é entregue ao organismo.
 


Dr. André Mota

Um exemplo desse movimento é o desenvolvimento, no Brasil, de uma versão líquida industrializada do extrato de Pinus pinaster, conhecido como pinheiro marítimo francês. O ativo, tradicionalmente encontrado no país em cápsulas ou em formulações manipuladas, passa agora a ser apresentado em gotas, com produção em escala industrial, padronização em 95% de procianidinas e concentração de 250 mg/ml.

A formulação foi desenvolvida pela Hayfar, indústria brasileira de suplementos, que afirma ser a primeira empresa do país a produzir Pinus pinaster líquido em escala industrial. Segundo a fabricante, o produto conta com notificação Anvisa, rastreabilidade de lote e controle de qualidade aplicado ao processo produtivo.

Mais do que um novo formato de consumo, a iniciativa aponta para uma questão técnica cada vez mais relevante no setor: a diferença entre concentração e biodisponibilidade.

“O consumidor muitas vezes olha apenas para a quantidade do ativo no rótulo, mas a absorção depende também do veículo e da forma farmacêutica. Um princípio ativo de alta pureza pode ter parte do seu potencial desperdiçado se estiver em uma apresentação pouco favorável à absorção”, afirma Dr. André Mota, farmacêutico responsável pela formulação da Hayfar.

O Pinus pinaster é extraído da casca do pinheiro marítimo e concentra compostos bioativos da família dos polifenóis, especialmente as procianidinas. A literatura científica internacional sobre o ativo é extensa. Em 2024, uma revisão publicada na revista Frontiers in Nutrition reuniu 39 ensaios clínicos randomizados, duplo-cegos e controlados por placebo, envolvendo 2.009 participantes, e analisou efeitos associados à saúde cardiovascular, função cognitiva, saúde articular, pele, visão, saúde feminina e performance esportiva.

Em outro estudo, publicado no European Heart Journal, pesquisadores observaram melhora da função endotelial em pacientes com doença arterial coronariana após oito semanas de suplementação com extrato de pinheiro marítimo. No campo da cognição, um ensaio duplo-cego com idosos entre 60 e 85 anos também apontou melhora em parâmetros relacionados à memória de trabalho e redução de biomarcadores de dano oxidativo.

Apesar da base científica acumulada em torno do ativo, especialistas reforçam que suplementos alimentares não são medicamentos e não substituem acompanhamento profissional. O avanço, nesse caso, está menos em prometer novos efeitos e mais em aperfeiçoar a forma de entrega de um composto já estudado.

A farmacocinética do Pinus pinaster ajuda a explicar esse desafio. Compostos de menor peso molecular, como catequina, ácido cafeico e taxifolina, tendem a ser absorvidos mais rapidamente no intestino delgado. Já as procianidinas de cadeia mais longa dependem da ação da microbiota intestinal para serem degradadas e se tornarem biodisponíveis. Por isso, o veículo utilizado na formulação pode influenciar o contato dos ativos com a mucosa gastrointestinal e a experiência de uso do consumidor.

Na prática, o processo industrial começa com o extrato seco da casca do pinheiro marítimo, em forma de pó, já padronizado em concentração de procianidinas. A partir dessa matéria-prima, a indústria define como transformar o ativo em produto acabado: cápsulas, comprimidos, sachês ou gotas. No caso da formulação líquida, o desafio é manter a padronização do extrato e desenvolver uma base adequada para consumo em gotas.

“O que diferencia um produto do outro não é apenas a matéria-prima. A escolha do veículo, da concentração e do processo de manipulação industrial define o que realmente chega ao consumidor em termos de consistência, estabilidade e aplicação prática”, explica Dr. André Mota.

Até então, consumidores brasileiros interessados em Pinus pinaster líquido dependiam principalmente de farmácias de manipulação, com produção sob prescrição e em pequena escala. A chegada de uma versão industrializada amplia a oferta e introduz uma nova discussão sobre padronização entre lotes, rastreabilidade e controle técnico dentro do segmento de suplementos.

Outro ponto de atenção é o perfil de consumo. Por ser apresentado em gotas, o produto pode atender pessoas com dificuldade de deglutição, consumidores que evitam cápsulas gelatinosas e profissionais que buscam maior flexibilidade na recomendação de doses. Segundo a Hayfar, a formulação não contém corantes artificiais, conservantes ou cápsula gelatinosa.

Para o mercado, o lançamento sinaliza uma mudança de rota. A categoria de suplementos passa a ser pressionada não apenas por ingredientes em alta, mas também por formulações mais sofisticadas, com maior transparência regulatória e processos industriais capazes de aproximar o setor de uma lógica mais técnica.

“A ciência avança quando o produto também avança. O nosso compromisso é transformar o que já está consolidado nos artigos científicos em uma formulação com qualidade, rastreabilidade e aplicação real para o consumidor brasileiro”, afirma Dr. André Mota.

Em um setor historicamente marcado pela repetição de formatos e pela dependência de matérias-primas importadas, a entrada de ativos naturais em versões líquidas industrializadas indica uma nova etapa para a suplementação no país: menos centrada apenas no ingrediente e mais atenta à tecnologia de entrega, à segurança do processo e à confiança do consumidor.

 


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Erica Matos
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