Internações por asma crescem no Brasil; inverno aumenta risco de crises respiratórias

Especialistas explicam como o frio, os vírus respiratórios e os ambientes fechados favorecem o agravamento da doença e comentam as mudanças recentes no tratamento oferecido pelo SUS

Por JOãO PEDRO
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A chegada do inverno costuma representar um alívio para quem prefere temperaturas mais amenas. Para os mais de 20 milhões de brasileiros que convivem com a asma, porém, a estação marca o início de um período de maior atenção à saúde respiratória e os números mostram que o cenário se agravou nos últimos anos. Segundo dados do Ministério da Saúde divulgados pelo Instituto de Assistência Médica ao Servidor Público Estadual em maio de 2026, o Brasil registrou um aumento de 63% no número de internações por asma entre 2020 e 2025. Anualmente, o SUS registra cerca de 350 mil internações pela doença, o que a coloca como a terceira maior causa de hospitalização no país. A combinação entre ar frio, baixa umidade, maior circulação de vírus e permanência prolongada em ambientes fechados cria o cenário ideal para o aumento das crises. Mas há um agravante comportamental: segundo pesquisas, a maioria dos pacientes não está com a doença sob controle. De acordo com inquérito nacional publicado pela Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, apenas 12,3% dos asmáticos diagnosticados têm a doença controlada, enquanto 51,2% estão com a asma sem controle e 36,4%, parcialmente controlada. O frio como gatilho Embora muitas pessoas associem as crises apenas às mudanças bruscas de temperatura, o problema é mais complexo. Durante o inverno, o ar tende a ficar mais seco e concentrar partículas irritantes, como poeira, mofo e ácaros. Ao mesmo tempo, a circulação de vírus respiratórios aumenta, favorecendo infecções que podem desencadear episódios de falta de ar, chiado no peito e tosse persistente. De acordo com a pneumologista e docente da Afya Unigranrio Barra da Tijuca, Dra. Hedi Marinho, o frio funciona como um gatilho para um sistema respiratório que já apresenta inflamação crônica. "A asma é uma doença inflamatória das vias aéreas. Quando o paciente entra em contato com ar frio, seco ou com agentes irritantes, ocorre uma resposta exagerada dos brônquios, que passam a se contrair e produzir mais secreção. É isso que provoca sintomas como chiado, aperto no peito, tosse e dificuldade para respirar", explica. A especialista destaca que o inverno também favorece hábitos que aumentam a exposição aos desencadeadores das crises. Com as temperaturas mais baixas, é comum manter portas e janelas fechadas por mais tempo, reduzindo a circulação de ar e favorecendo o acúmulo de poeira, fungos e ácaros dentro de casa. "Os ácaros são um dos principais desencadeadores de crises asmáticas. Quando os ambientes permanecem fechados e sem ventilação adequada, a concentração desses agentes aumenta significativamente. Muitas vezes o paciente acredita que o problema é apenas o frio, mas existe uma combinação de fatores atuando ao mesmo tempo", afirma. Além dos alérgenos, as infecções respiratórias representam um dos principais motivos de descompensação da doença. Vírus como influenza, rinovírus e vírus sincicial respiratório circulam com mais intensidade durante os meses frios e podem provocar inflamação importante das vias aéreas. Segundo Hedi Marinho, um dos erros mais frequentes é procurar assistência apenas quando a crise já está instalada. "A asma é uma doença que exige controle contínuo. O paciente não deve esperar sentir falta de ar para se preocupar com o tratamento. O acompanhamento regular e o uso correto das medicações preventivas reduzem significativamente o risco de crises graves e de internações", ressalta. O que há de novo no tratamento Além do cuidado preventivo no inverno, 2026 trouxe uma novidade concreta para os pacientes: por meio da Portaria Conjunta SAES/SCTIE nº 43, de 24 de março de 2026, o Ministério da Saúde atualizou o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas para asma, ampliando as opções terapêuticas para casos graves com a inclusão de novos medicamentos imunobiológicos, além da ampliação do uso do mepolizumabe para crianças. A atualização reforça que a asma não deve ser tratada apenas com broncodilatador de alívio. Para pacientes com asma grave, as novas opções podem representar melhora significativa na qualidade de vida, com redução das crises, internações e do uso contínuo de corticoides orais associados a efeitos colaterais importantes no longo prazo. A Dra. Hedi Marinho ressalta que, independentemente da gravidade do caso, o ponto de partida continua sendo o controle contínuo. "A asma é uma doença que exige acompanhamento regular. O paciente não deve esperar sentir falta de ar para se preocupar com o tratamento. O uso correto das medicações preventivas reduz significativamente o risco de crises graves e de internações", afirma. Embora não tenha cura, a asma pode ser controlada na maioria dos casos. O tratamento disponível pelo SUS inclui medicamentos inalatórios capazes de reduzir a inflamação dos brônquios e prevenir crises. Para atravessar o inverno com mais segurança, os especialistas recomendam manter a vacinação contra gripe e covid-19 atualizada, seguir corretamente o tratamento prescrito, evitar exposição à fumaça de cigarro, hidratar-se adequadamente e manter os ambientes limpos e ventilados. "O paciente asmático precisa encarar o inverno de forma preventiva. Ter a medicação de resgate disponível, manter o tratamento controlador em dia e reconhecer precocemente os sinais de piora pode fazer toda a diferença para evitar uma crise grave", afirma Hedi Marinho.

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