Oncofertilidade: preservando a fertilidade após o diagnóstico de câncer

Avanços da medicina permitem que pacientes jovens mantenham o sonho de formar uma família mesmo após o tratamento

Por SALATIEL ARAúJO
6 Min

Oncofertilidade: preservando a fertilidade após o diagnóstico de câncer
Imagem Ilustrativa
Receber um diagnóstico de câncer já é, por si só, um momento de grande impacto emocional. Quando isso acontece com pessoas jovens, uma preocupação adicional costuma surgir: será que ainda será possível ter filhos no futuro?

Com os avanços da medicina reprodutiva, essa pergunta passou a ter novas possibilidades de resposta. A área conhecida como oncofertilidade reúne estratégias que permitem preservar a fertilidade de pacientes que irão iniciar tratamentos contra o câncer, como quimioterapia ou radioterapia, terapias que podem afetar diretamente a capacidade reprodutiva.


Segundo um estudo da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, cerca de 60% das mulheres com câncer em idade fértil que recebem indicação conseguem preservar a fertilidade no Brasil. O tema foi discutido em entrevista com o especialista em reprodução assistida Dr. Alessandro Schuffner.

A importância de discutir a fertilidade desde o diagnóstico

De acordo com o especialista, o diagnóstico de câncer em pacientes jovens exige uma abordagem multidisciplinar. Oncologistas, especialistas em reprodução humana, psicólogos e equipes de enfermagem trabalham juntos para orientar o paciente sobre todas as possibilidades.

Nesse momento delicado, o foco principal é o tratamento do câncer. No entanto, discutir a preservação da fertilidade pode evitar frustrações futuras.

“É fundamental que essa conversa aconteça antes do início do tratamento. Alguns medicamentos e terapias podem comprometer a produção de óvulos ou espermatozoides, o que pode levar à infertilidade”, explica o médico.

Por isso, sempre que possível, a preservação do material genético deve ser avaliada antes do início das terapias oncológicas.

Como o tratamento do câncer pode afetar a fertilidade

Os impactos do tratamento variam de acordo com o tipo de câncer, os medicamentos utilizados, o tempo de tratamento e as características individuais de cada paciente.

Algumas terapias podem afetar diretamente os ovários ou os testículos, reduzindo ou interrompendo a produção de células reprodutivas. Em outros casos, o próprio câncer pode comprometer essa função antes mesmo do início do tratamento.

Diante desse cenário, a avaliação com um especialista em reprodução humana ajuda a estimar o risco de infertilidade e a definir as melhores estratégias de preservação.

Congelamento de óvulos e espermatozoides

A forma mais comum de preservar a fertilidade é o congelamento de gametas — óvulos nas mulheres e espermatozoides nos homens.

No caso masculino, o processo costuma ser relativamente simples. A coleta do sêmen é feita em laboratório e o material é armazenado em bancos especializados para uso futuro em tratamentos de reprodução assistida.

Já para as mulheres, o procedimento é mais complexo. É necessário realizar uma estimulação ovariana para estimular a produção de múltiplos óvulos, que depois são coletados e congelados.

Esse processo pode levar cerca de duas semanas e permite que os óvulos sejam preservados para utilização após o tratamento oncológico.

Alternativas quando há parceiro

Em algumas situações, quando o paciente já possui parceiro ou parceira, também é possível realizar a fertilização em laboratório antes do tratamento e congelar os embriões.

Essa estratégia pode aumentar as chances de gravidez futura, já que os embriões formados ficam armazenados até que o casal esteja pronto para tentar a gestação.

Nem sempre há tempo mas a avaliação é essencial

Nem todos os casos permitem realizar procedimentos de preservação da fertilidade. Alguns tipos de câncer exigem início imediato do tratamento ou apresentam características hormonais que impedem a estimulação ovariana.

Mesmo assim, especialistas destacam que a avaliação deve sempre ser discutida. Em determinadas situações, novas estratégias podem ser consideradas, e cada caso precisa ser analisado individualmente.

Gravidez após o tratamento

Uma dúvida comum entre pacientes é se será possível engravidar após vencer o câncer.

Na maioria das vezes, sim. Após um período considerado seguro pelo oncologista — conhecido como tempo livre de doença — muitas mulheres podem tentar engravidar utilizando os óvulos congelados ou até mesmo de forma natural, dependendo do caso.

Existem, porém, situações específicas em que a gestação precisa ser adiada ou realizada com auxílio de útero de substituição, especialmente quando houve retirada do útero ou contraindicação médica para gravidez.

Informação e planejamento fazem diferença

Para especialistas, o principal recado para pacientes jovens diagnosticados com câncer é buscar informação o quanto antes.

Discutir a fertilidade antes do início do tratamento amplia as possibilidades e permite que decisões importantes sejam tomadas com mais tranquilidade e planejamento.

Os avanços da medicina reprodutiva têm permitido que cada vez mais pacientes, mesmo após enfrentar o câncer, consigam realizar o sonho de formar uma família no futuro.
 

Dr. Alessandro Schuffner é ginecologista e especialista em reprodução assistida é mestre em Medicina Interna e formado internacionalmente no renomado Jones Institute (EUA). Diretor da Conceber, destaca-se em laparoscopia e em estudos sobre a qualidade funcional dos espermatozoides, sendo referência nacional em medicina reprodutiva. Com mais de duas décadas de atuação, une ciência, experiência clínica e pesquisa avançada.

Fonte: Dr. Alessandro Schuffner | @dralessandroschuffner.
 

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Salatiel Medeiros de Araújo
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