Quando a violência se torna espetáculo

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Quando a violência se torna espetáculo
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A divulgação recente de mensagens trocadas entre um tenente-coronel e sua esposa, posteriormente assassinada, revela um retrato perturbador de uma lógica de poder baseada na dominação e na desumanização das mulheres.

Nas conversas, o autor se autodefine como “macho-alfa, provedor, religioso e dominador”, enquanto atribui à esposa o papel de submissão absoluta. Não se trata de um caso isolado, mas de um sintoma de um fenômeno mais amplo: a normalização de discursos que associam masculinidade à violência e ao controle.


Esse tipo de comportamento encontra hoje terreno fértil em ambientes digitais. Grupos e influenciadores que orbitam a chamada “machosfera” difundem ideias misóginas, frequentemente amparadas por interpretações distorcidas de papéis sociais e até religiosos. Mais grave: muitos desses conteúdos são produzidos com plena consciência dos limites legais, explorando brechas e a baixa penalização de crimes como agressão física.

A exposição pública de episódios de violência, em elevadores, condomínios e espaços coletivos — evidencia um elemento adicional: a transformação da agressão em espetáculo. A presença de câmeras, longe de inibir, em alguns casos parece estimular a exibição, reforçada por redes que validam e amplificam esses comportamentos.

Os reflexos dessa cultura já são perceptíveis entre jovens. Casos recentes, como a circulação de listas que objetificam meninas em ambientes escolares, mostram como esse discurso ultrapassa o ambiente virtual e se traduz em práticas concretas de violência simbólica e potencialmente física.
Há ainda um componente religioso que merece atenção. Em determinados grupos, interpretações literais e descontextualizadas de textos bíblicos são utilizadas para justificar a submissão feminina e desencorajar o rompimento de relações abusivas. Esse uso distorcido da fé contribui para perpetuar ciclos de violência e silenciamento.

Diante desse cenário, o debate precisa avançar em duas frentes. A primeira é legal: é necessário reavaliar a proporcionalidade das penas aplicadas a crimes de violência contra a mulher, garantindo que cumpram papel efetivo de dissuasão. A segunda é cultural: enfrentar a disseminação organizada de conteúdos que promovem misoginia e naturalizam a violência.

Produções recentes, como o documentário Por dentro da Machosfera, ajudam a lançar luz sobre esse fenômeno global, mas ainda há um longo caminho para compreendê-lo e enfrentá-lo de forma estruturada.
A violência contra a mulher não pode ser tratada como desvio individual ou episódio isolado. Trata-se de um problema sistêmico, que exige resposta institucional, revisão de marcos legais e um esforço coletivo para interromper a normalização do inaceitável.

Enilson Simões de Moura – Alemão
Membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável da Presidência da República

 

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GISLENE ROSA DA SILVA
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