A presença feminina por trás das câmeras: cineastas brasileiras que mudam a narrativa do setor no país.

Celina Borges Torrealba Carpi destaca o crescimento da visão feminina em produções com temas sociais, mais diversidade e renovação estética no cinema.

Por ROXANNE SILVA
5 Min

A presença feminina por trás das câmeras: cineastas brasileiras que mudam a narrativa do setor no país.
Arquivo pessoal

A participação de mulheres no audiovisual brasileiro tem avançado nos últimos anos, especialmente em funções de direção e roteiro. Dados da Agência Nacional do Cinema (Ancine) indicam aumento gradual na presença feminina em longas-metragens nacionais, ainda que o setor permaneça majoritariamente masculino. Relatórios sobre diversidade no cinema brasileiro mostram que, apesar do crescimento, mulheres dirigem uma parcela menor das produções, o que evidencia um cenário em transformação, mas ainda desigual.

Esse movimento acompanha uma tendência internacional. Estudos do Observatório Europeu do Audiovisual apontam que a presença de mulheres na direção tem crescido globalmente, impulsionada por políticas de incentivo, editais específicos e maior debate público sobre equidade de gênero na indústria criativa.

Um novo olhar para contar histórias

A ampliação da presença feminina não se limita a números, mas impacta diretamente a construção narrativa das obras. Para a cineasta e produtora Celina Borges Torrealba Carpi, esse avanço tem contribuído para a incorporação de perspectivas que historicamente ficaram fora do centro das produções.

Com formação em Cinema pela Universidade Sorbonne e mestrado em Documentário pela New York University, além da atuação como sócia-fundadora da Donna Features, Celina acompanha de perto esse movimento dentro do cinema autoral. “A presença feminina não muda apenas quem conta a história, mas como ela é contada. Há uma ampliação de sensibilidade, de temas e de formas de abordar a realidade”, afirma.

Temas sociais e narrativas mais plurais

A presença crescente de mulheres na direção tem ampliado o repertório temático do cinema brasileiro. Questões relacionadas a identidade, território, memória e direitos humanos têm ganhado novos contornos, muitas vezes a partir de experiências pessoais e coletivas que antes tinham menor visibilidade.

Esse movimento é particularmente evidente no documentário, onde a liberdade criativa permite abordagens mais experimentais e íntimas. “Quando novas vozes entram em cena, surgem outras formas de olhar para os mesmos temas. Isso fortalece o cinema como espaço de reflexão”, diz.

Reconhecimento internacional e mudança de percepção

A maior circulação de filmes dirigidos por mulheres em festivais internacionais também sinaliza uma mudança de percepção no setor. Mostras como Cannes, Berlim e Veneza têm ampliado a presença de diretoras, incluindo produções brasileiras que dialogam com questões contemporâneas.

Segundo Celina, esse reconhecimento está relacionado à consistência dos projetos e à conexão com o público global. “Existe uma demanda por histórias que tragam novas perspectivas. O olhar feminino tem contribuído para esse diálogo mais amplo”, afirma.

Barreiras ainda presentes no mercado

Apesar dos avanços, a desigualdade de acesso a recursos e oportunidades ainda é um desafio. Dados da Ancine mostram que mulheres seguem com menor participação em produções de maior orçamento, o que limita a escala de seus projetos.

Para a cineasta, a mudança depende de ações estruturais. “O crescimento é visível, mas ainda há um caminho importante em relação ao acesso a financiamento e à distribuição”, declara.

Renovação estética e futuro do cinema brasileiro

A presença feminina também tem impacto na linguagem cinematográfica, com propostas estéticas que exploram novas formas de narrativa e experimentação visual. Esse movimento contribui para a renovação do cinema brasileiro, tanto no circuito independente quanto em produções de maior alcance.

“O cinema está em constante transformação. A entrada de mais mulheres nesse processo amplia as possibilidades e contribui para um retrato mais diverso da sociedade”, afirma.

Com o avanço dessas mudanças, o setor audiovisual brasileiro segue em processo de renovação, impulsionado por novas perspectivas que influenciam tanto o conteúdo quanto a forma de produção das obras.

Sobre Celina Borges Torrealba Carpi

Celina Borges Torrealba Carpi é cineasta e produtora, formada em Cinema pela Universidade Sorbonne e mestre em Documentário pela New York University. Atua em projetos autorais e de relevância política e cultural, além de integrar organizações do terceiro setor ligadas a direitos humanos e desenvolvimento urbano. Produziu longas de destaque internacional, como Wasp Network, The Lighthouse e A Vida Invisível, e dirigiu o premiado curta The Breeding Shed. Finaliza atualmente seu primeiro longa documental brasileiro, Ainda Sei Dançar (2025).

 


 

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ROXANNE ARAUJO HUBER DA SILVA
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