Autismo e altas habilidades: novela reacende debate sobre diagnóstico precoce e dupla excepcionalidade

Especialistas alertam para sinais ainda na infância e destacam impacto da intervenção precoce no desenvolvimento

Por JúLIA BOZZETTO
4 Min

Autismo e altas habilidades: novela reacende debate sobre diagnóstico precoce e dupla excepcionalidade
Divulgação

A representação do Transtorno do Espectro Autista (TEA) na teledramaturgia brasileira volta ao centro do debate com o personagem Cristiano, da novela Três Graças, exibida pela TV Globo. Interpretado por Davi Luis Flores, o menino é filho de Alaíde, vivida por Juliana Alves, e Rivaldo, papel de Augusto Madeira.

Na trama, escrita por Aguinaldo Silva, o diagnóstico surge após os pais identificarem comportamentos atípicos, como reações intensas e desregulação emocional associadas ao uso de um celular. Ao longo da narrativa, o personagem é diagnosticado não apenas com autismo, mas também com altas habilidades, evidenciando um quadro de dupla excepcionalidade que exige olhar ainda mais individualizado. A história acompanha o impacto da descoberta e a busca por orientação especializada, refletindo a realidade de milhares de famílias brasileiras.

Diagnóstico precoce ainda é um desafio

Apesar do aumento da conscientização, o diagnóstico do TEA ainda enfrenta entraves como desinformação, resistência familiar e dificuldade de acesso a profissionais especializados.

A neuropsicopedagoga especialista em autismo Silvia Kelly Bosi destaca que os sinais iniciais costumam aparecer cedo, mas frequentemente passam despercebidos.

“Muitos pais percebem que há algo diferente no desenvolvimento da criança, mas não sabem identificar como um possível sinal de autismo. O atraso na busca por avaliação pode impactar diretamente no prognóstico”, explica.

Segundo ela, sinais como atraso na fala, dificuldade de interação social, hipersensibilidade sensorial e comportamentos repetitivos precisam ser observados com atenção, como evidenciado na trama.

Intervenção precoce muda trajetórias

A psiquiatra Fabricia Signorelli, especialista em TEA, TDAH e altas habilidades, reforça que o diagnóstico é uma ferramenta essencial para direcionar o cuidado, especialmente em casos de dupla excepcionalidade.

“Quando identificamos o autismo precocemente, conseguimos iniciar intervenções que potencializam o desenvolvimento da criança, melhorando a interação social, a comunicação, a rigidez comportamental, autonomia e qualidade de vida”, observa.

Ela ressalta que cada caso deve ser avaliado de forma individualizada, com estratégias terapêuticas adaptadas às necessidades específicas da criança.

Abordagem multidisciplinar é essencial

O acompanhamento de pessoas com TEA exige atuação integrada de diferentes profissionais da saúde e do desenvolvimento.

A fonoaudióloga Paula Anderle enfatiza a importância da comunicação no processo terapêutico.

“O trabalho fonoaudiológico no TEA vai muito além da fala. Atuamos na comunicação funcional, na interação social e na compreensão da linguagem, respeitando o tempo e o perfil de cada criança”, diz.

Já a psicóloga e neuropsicóloga Thaís Barbisan destaca o impacto das funções cognitivas e emocionais no desenvolvimento global, sobretudo em quadros de dupla excepcionalidade.

“No autismo associado a altas habilidades, é fundamental olhar tanto para os potenciais quanto para as dificuldades. Trabalhamos aspectos como atenção, regulação emocional, flexibilidade cognitiva e habilidades sociais, ajudando a criança a desenvolver seu potencial com equilíbrio”, explica.

Ficção como ferramenta de conscientização

Ao abordar o diagnóstico de autismo em horário nobre, Três Graças amplia o debate público e contribui para a redução de estigmas. A inclusão das altas habilidades na narrativa também traz visibilidade para perfis ainda pouco compreendidos, como os de dupla excepcionalidade.

Para as especialistas, a visibilidade é um passo importante, desde que acompanhada de informação qualificada.

“A novela tem um papel importante ao mostrar que buscar ajuda é fundamental. Quanto antes isso acontece, maiores são as chances de desenvolvimento da criança”, conclui Fabricia Signorelli.


Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a):
JÚLIA KLAUS BOZZETTO
[email protected]


Notícias Relacionadas »