Além da "Tristeza Materna": Quando o Baby Blues se torna depressão pós-parto

Saiba como identificar sinais de alerta e discutem a viabilidade do tratamento domiciliar para garantir o vínculo entre mãe e bebê em momentos de crise.

Por Bendita Letra
4 Min

Além da "Tristeza Materna": Quando o Baby Blues se torna depressão pós-parto
Dr. Alexandre Araújo
 

No Brasil, mais de uma em cada quatro mulheres apresenta sintomas de depressão entre seis e dezoito meses após o nascimento do filho, índice superior ao estimado pela OMS para países de baixa renda, segundo estudo publicado no Journal of Affective Disorders pela pesquisadora Mariza Theme, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz). Apesar da expressiva prevalência, menos de 25% das mães afetadas chegam a receber tratamento adequado. O que muitas famílias ainda não sabem é que existe uma linha tênue, e clinicamente importante, entre o chamado baby blues e um quadro depressivo que exige atenção especializada.

O baby blues é uma resposta emocional esperada nos primeiros dias após o parto, impulsionada pela queda brusca dos hormônios da gestação. Choro fácil, irritabilidade e aquela sensação estranha de distância do bebê costumam aparecer entre o segundo e o quinto dia e, na maioria das vezes, somem sozinhos até o décimo. "O problema é que as pessoas normalizam o sofrimento da mãe como se fosse parte obrigatória da maternidade. Quando os sintomas persistem ou se intensificam, não estamos mais falando de adaptação, estamos falando de doença", alerta o Dr. Alexandre Araújo, psiquiatra com atuação em psicoterapia e dependências químicas.

Os sinais que distinguem a depressão pós-parto do baby blues são tristeza que não passa depois de duas semanas, dificuldade real em criar vínculo com o recém-nascido, culpa excessiva, insônia que vai muito além das privações naturais do período e, nos casos mais graves, pensamentos de autolesão. "Mãe que não consegue olhar para o filho sem sentir indiferença ou angústia precisa de avaliação imediata. Isso não é fraqueza, é sintoma", reforça o médico.

Um dos pontos mais delicados na condução desses casos é justamente decidir entre o acompanhamento próximo e a internação. A separação entre mãe e bebê num momento de crise pode agravar o quadro e comprometer um vínculo que leva tempo para se construir. Por isso, o tratamento conduzido em casa vem se mostrando uma alternativa real para situações de risco moderado. "Quando há suporte familiar verdadeiro, ambiente seguro e ausência de risco imediato à vida, conseguimos tratar a mãe em casa, com acompanhamento próximo. Preservar esse contato é parte do tratamento", explica o especialista. 

O cuidado envolve, em geral, psicoterapia, apoio familiar estruturado e, quando necessário, medicação compatível com a amamentação. Cada caso pede uma resposta diferente. "Não existe protocolo único. Tem mãe que responde muito bem à psicoterapia semanal com suporte em rede. Tem mãe que precisa de medicação desde a primeira consulta. O que não dá é esperar para ver", diz o psiquiatra.

Reconhecer a depressão pós-parto como condição médica, e não como falha de caráter, ainda é um desafio enorme no país. Familiares que minimizam, mães que silenciam por vergonha e profissionais que não fazem a triagem adequada formam uma cadeia que adia diagnósticos e prolonga o sofrimento sem necessidade. "A maternidade pode ser linda e devastadora ao mesmo tempo. Quando é devastadora demais, isso tem nome, tem causa e tem tratamento. Buscar ajuda é o ato mais corajoso que uma mãe pode ter", conclui o Dr. Alexandre.

 

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Fonte: Dr. Alexandre Araújo | Médico Psiquiatra - Com atuação em Psiquiatria Geral, Psicoterapia e Dependências Químicas.


 

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MARIA JULIA HENRIQUES NASCIMENTO
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