Uma lesão pequena, aparentemente banal, pode esconder o tipo mais comum de câncer de pele. Após o carcinoma basocelular voltar ao noticiário, o tema reacende um alerta importante: esse tumor costuma evoluir de forma lenta e silenciosa, o que faz muita gente adiar a ida ao dermatologista e tratar como detalhe uma alteração que merece atenção.
Embora tenha baixa mortalidade e altas chances de cura quando descoberto cedo, o carcinoma basocelular pode crescer, ulcerar e comprometer tecidos ao redor quando o diagnóstico demora. Em geral, ele aparece em regiões mais expostas ao sol, como rosto, orelhas, pescoço, couro cabeludo, ombros e costas.
Para o dermatologista Dr. Matheus Rocha, o maior risco está justamente no aspecto discreto com que a lesão pode começar. “Muita gente imagina que câncer de pele sempre vai aparecer como uma pinta escura ou uma lesão muito agressiva, mas o carcinoma basocelular frequentemente começa de forma sutil. Pode ser uma ferida que não cicatriza, uma bolinha brilhante, uma casquinha recorrente ou um ponto que sangra com facilidade”, afirma.
Segundo o especialista, o problema é que o tumor nem sempre provoca dor ou sintomas intensos no início. “Como ele costuma ter crescimento lento, muita gente espera, observa, passa pomada, acredita que vai melhorar sozinho. Esse atraso pode permitir que a lesão aumente de tamanho e exija um tratamento mais extenso”, diz.
O carcinoma basocelular se desenvolve nas células basais da pele e está fortemente associado à exposição acumulada à radiação ultravioleta. Por isso, é mais comum em áreas do corpo que recebem sol ao longo da vida e em pessoas com histórico de fotoexposição intensa, pele clara ou dano solar crônico.
Nem sempre o carcinoma basocelular chama atenção de imediato. Em muitos casos, ele pode se manifestar como:
Para o Dr. Matheus Rocha, o comportamento da lesão costuma dizer muito. “O paciente geralmente relata que aquilo melhora e piora, forma crosta, volta a sangrar e nunca desaparece por completo. Esse padrão é bastante típico e deve ser investigado.”
Apesar de ser considerado um tumor de baixa agressividade quando comparado ao melanoma, o carcinoma basocelular não deve ser tratado como algo sem importância. Quando negligenciado, pode invadir estruturas locais, aumentar progressivamente e gerar prejuízo funcional e estético, especialmente em áreas delicadas como nariz, pálpebras, orelhas e couro cabeludo.
“O fato de ele ter baixa chance de metástase faz algumas pessoas diminuírem a gravidade, mas essa é uma leitura equivocada”, explica Rocha. “Ele pode não ser o câncer de pele mais letal, mas pode causar destruição local relevante quando cresce sem tratamento.”
O que aumenta o risco
Alguns fatores ajudam a explicar por que esse câncer é tão frequente:
Rocha lembra que o couro cabeludo merece atenção especial, principalmente em homens com calvície ou rarefação capilar. “É uma área muitas vezes esquecida na proteção solar, mas bastante vulnerável. Quando não há cobertura adequada, a radiação atinge diretamente uma região de risco.”
O diagnóstico começa no consultório, com avaliação clínica da lesão e exame dermatológico. Quando há suspeita, o médico pode indicar dermatoscopia e confirmação por biópsia ou análise histopatológica, etapa importante para definir o tipo da lesão e o tratamento mais adequado.
Segundo o Dr. Matheus Rocha, a confirmação precoce muda bastante o cenário. “Quando o tumor é identificado cedo, normalmente conseguimos tratar com mais simplicidade, preservar mais tecido saudável e reduzir o impacto estético.”
O tratamento mais comum para o carcinoma basocelular é a retirada cirúrgica da lesão. A depender do caso, do tamanho, da profundidade e da localização, o médico pode optar por diferentes abordagens.
Entre os principais tratamentos estão:
“Na maioria dos casos, quando o diagnóstico é precoce, o tratamento costuma ser resolutivo”, afirma Rocha. “O grande problema é quando o paciente convive por muito tempo com uma lesão aparentemente pequena e só procura atendimento quando ela já cresceu ou se aprofundou.”
A orientação é procurar avaliação médica sempre que houver uma alteração persistente na pele, especialmente se ela surgir em área exposta ao sol e apresentar sangramento, crosta recorrente ou cicatrização incompleta.
Para Rocha, a regra prática é simples. “Se a lesão não desaparece, muda de aspecto ou insiste em permanecer, ela precisa ser examinada. Em câncer de pele, ser diagnosticado cedo faz toda a diferença.”
Sobre o especialista
Matheus Rocha é dermatologista com atuação em cirurgia dermatológica e tratamento do câncer de pele. A trajetória na medicina inclui foco em doenças de pele e atenção a fatores sociais que interferem no acesso ao diagnóstico. Também atua na formação de médicos para reconhecimento e manejo de tumores cutâneos.
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PAULO NOVAIS PACHECO
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