Por Camila Camaratta
Quase tudo o que se fala sobre a menopausa gira em torno das perdas. Mas essa história está incompleta.
Estima-se que a maioria das mulheres apresenta sintomas ao longo da transição menopausal. De acordo com a The Menopause Society (antiga North American Menopause Society), cerca de 7 em cada 10 mulheres apresentam alterações como ondas de calor, distúrbios do sono e oscilações de humor. Essas mudanças são reais e, para muitas, exigem acompanhamento médico e atenção à saúde. Ainda assim, reduzir essa fase da vida a um catálogo de dificuldades é ignorar que ela também pode trazer transformações importantes.
Durante a perimenopausa, o corpo passa por oscilações hormonais significativas. Um dos primeiros hormônios a diminuir costuma ser a progesterona, que, ao longo da vida reprodutiva, exerce efeito calmante sobre o cérebro e contribui para a regulação do sono. Quando esse equilíbrio se altera, o sono tende a se tornar mais leve, e a mente pode entrar em atividade justamente no meio da madrugada.
Essa experiência não é apenas psicológica; há também uma dimensão neuro-hormonal. Compreender isso produz um efeito importante: aquilo que muitas vezes é vivido como falha pessoal ou fragilidade emocional passa a ser reconhecido como parte de um processo natural da vida.
Mas as transformações dessa etapa não são apenas biológicas. Do ponto de vista psíquico, muitas mulheres atravessam uma reorganização interna, experiência que ganha novos contornos em um momento em que mulheres acima dos 45 anos permanecem ativas, produtivas e, muitas vezes, no auge de suas responsabilidades profissionais e pessoais.
Há, inclusive, um descompasso pouco discutido. Enquanto o corpo passa por mudanças profundas, as exigências externas permanecem praticamente inalteradas: desempenho, estabilidade emocional, disponibilidade e, não raramente, uma aparência ainda vinculada a ideais de juventude. A menopausa, embora universal, segue sendo pouco nomeada em diversos ambientes, especialmente no trabalho, onde sintomas são frequentemente silenciados para evitar estigmas.
Nesse contexto, essa reorganização psíquica pode coincidir com o que pesquisadores descrevem como um pico criativo tardio, momento em que a produção intelectual ou artística emerge com força na maturidade. Não por acaso. A maturidade também é o tempo de integrar ideias, afetos e experiências. O pensamento deixa de se organizar de forma fragmentada e passa a articular, com mais consistência, as diferentes dimensões da experiência acumulada.
O psicanalista Erik Erikson descreveu essa etapa como o momento da generatividade**,** o impulso de criar, produzir e transmitir algo de si para o mundo. Não se trata apenas de ter filhos, mas também de elaborar ideias, desenvolver projetos e participar de forma mais ampla da vida cultural e social.
Não é coincidência que algumas obras marcantes da literatura feminina tenham surgido nessa fase da vida. Clarice Lispector escreveu A Hora da Estrela perto dos cinquenta anos. Simone de Beauvoir produziu reflexões fundamentais sobre o envelhecimento também na maturidade.
Reconhecer as dificuldades dessa fase é importante.
Mas reconhecer suas possibilidades transforma a forma como ela é vivida.
A menopausa pode ser difícil, mas também pode ser libertadora e criativa.
Talvez o ponto mais delicado, e ao mesmo tempo mais potente, dessa travessia seja reconhecer que algo, de fato, se encerra para que outra forma de existir possa emergir.
Na escuta clínica, o que aparece não é apenas a queixa sobre o corpo que muda, mas o confronto com perguntas mais profundas: quem sou eu quando já não preciso corresponder às expectativas que me atravessaram por tanto tempo? O que permanece quando certas funções maternas, sociais, produtivas e reprodutivas deixam de ocupar o centro?
Nesse ponto, não há regra pronta, nem médica, nem de manual, nem de discurso externo, que determine como atravessar essa fase. O que se impõe não vem de fora. Trata-se de uma vivência que exige elaboração própria, menos guiada por expectativas e mais pela construção de um modo singular de estar na própria vida.
Nesse sentido, a menopausa pode operar como um deslocamento, não apenas hormonal, mas também simbólico. Com isso, há uma queda de referências externas e, junto dela, a possibilidade, muitas vezes incômoda, de um encontro mais direto com o próprio desejo.
E esse encontro não é imediato nem linear. Exige tempo, elaboração e, sobretudo, uma autorização interna para não saber, de imediato, o que fazer com essa nova liberdade.
Se antes havia um corpo que respondia a ciclos, agora há um corpo que convida à escuta. Se antes havia urgência em dar conta de tudo, pode surgir a chance de escolher, com mais precisão, onde investir energia, presença e sentido.
Talvez o que ninguém conte não seja apenas o lado bom da menopausa, mas o fato de que ela inaugura uma espécie de segunda narrativa de si mesma, menos orientada pelo que é esperado e mais próxima do que é possível.
E, para muitas mulheres, é justamente aí que algo verdadeiramente próprio pode começar.
Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a):
ABIGAIL BORGES DOS REIS
[email protected]