5 mitos sobre a vacina da gripe que ainda resistem à ciência em meio à alta de casos graves

Com influenza A liderando óbitos por SRAG e campanha em andamento, mitos persistentes ainda afastam a população da imunização

Por JOãO PEDRO
8 Min

5 mitos sobre a vacina da gripe que ainda resistem à ciência em meio à alta de casos graves
Divulgação
A influenza voltou a ocupar um lugar central no cenário epidemiológico brasileiro. Dados recentes do boletim InfoGripe indicam que 72,5% dos óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) estão associados ao vírus influenza A, superando outras infecções respiratórias. O avanço ocorre em um momento em que a Campanha Nacional de Vacinação contra a Influenza já está em andamento, com início em 28 de março de 2026 e mais de 15,7 milhões de doses distribuídas em todo o país.

Mesmo com a oferta gratuita nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e a priorização de grupos mais vulneráveis como idosos, crianças e gestantes, a adesão ainda é impactada por um fator recorrente: a circulação de informações equivocadas sobre a vacina.


Na prática dos serviços de saúde, dúvidas e receios seguem sendo frequentes. Segundo a coordenadora de enfermagem da Afya Unigranrio Barra da Tijuca, Viviane Quintas, muitas dessas crenças já foram amplamente desmentidas pela ciência, mas continuam presentes no cotidiano do atendimento. “Mesmo com campanhas anuais e informações disponíveis, ainda escutamos dúvidas muito básicas sobre a vacina. Há um receio que não se sustenta cientificamente, mas que acaba afastando as pessoas da imunização”, afirma.

A pediatra e professora do curso de Medicina da Afya Unigranrio Barra, Dra. Cláudia Coeli, avalia que a disseminação de informações sem embasamento científico, intensificada pela polarização política observada em diferentes países, contribuiu para ampliar a desconfiança em relação às vacinas. “A questão política com a polarização trouxe uma arriscada confusão entre escolhas políticas e ciência. Ciência e política devem estar atuando juntas no enfrentamento de doenças, mas nunca as convicções políticas podem definir as verdades científicas”, destaca.

De acordo com a especialista, o contato direto com a população coloca os profissionais de enfermagem em uma posição estratégica para combater a desinformação e ampliar a cobertura vacinal. “A orientação é uma parte essencial do nosso trabalho. Muitas vezes, a decisão de se vacinar vem depois de uma conversa, de um esclarecimento simples que gera confiança”, explica.

A vacinação é uma das intervenções de saúde pública mais eficazes e custo-efetivas da história. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) é reconhecido internacionalmente pela oferta gratuita de vacinas contra doenças infecciosas potencialmente graves. Segundo a médica, a queda das coberturas vacinais no Brasil acompanha uma tendência mundial e representa um risco direto para o aumento dos casos de influenza e de SRAG. “Apenas a melhora das taxas de cobertura vacinal será capaz de proteger a todos”, afirma.

5 mitos sobre a vacina da gripe e o que a ciência já comprovou:
  1. “A vacina da gripe pode causar a doença”
A vacina contra influenza utilizada na campanha é composta por vírus inativados ou fragmentos virais, incapazes de se replicar no organismo. Isso elimina qualquer possibilidade de causar gripe. Reações como dor no local da aplicação, febre baixa ou mal-estar são eventos adversos esperados e transitórios, associados à ativação do sistema imunológico. “Esses sintomas leves são muitas vezes confundidos com a doença, mas na verdade indicam que o organismo está respondendo ao estímulo da vacina”, explica Viviane Quintas. Dra. Cláudia Coeli reforça que a vacina da influenza é produzida com vírus morto e, por isso, não provoca gripe. “O indivíduo pode pegar influenza, mas será uma forma branda de doença”, explica. A especialista também lembra que outros vírus respiratórios, como vírus sincicial respiratório, adenovírus e parainfluenza, podem causar sintomas semelhantes aos da gripe, o que frequentemente gera confusão na população.
  1. “Só precisa se vacinar quem faz parte do grupo de risco”
Embora a campanha priorize grupos mais vulneráveis, a vacinação tem impacto coletivo. A redução da circulação viral depende da cobertura populacional, o que contribui para diminuir a transmissão e proteger indiretamente pessoas com maior risco de desenvolver formas graves - conceito conhecido como proteção comunitária. Em cenários de alta incidência, como o atual, essa estratégia é fundamental para evitar sobrecarga do sistema de saúde. Garantir a cobertura vacinal de idosos, crianças e imunossuprimidos é essencial, já que esses grupos apresentam maior risco de complicações, internações e mortalidade associadas às infecções respiratórias.
  1. “Se tomei a vacina no ano passado, não preciso repetir”
As cepas circulantes mudam a cada ano, e a formulação da vacina é atualizada para acompanhar essas variações. Além disso, a resposta imunológica tende a diminuir com o tempo, exigindo reforço periódico. Esse fator é particularmente relevante em momentos de aumento da circulação viral, quando a proteção atualizada faz diferença na prevenção de casos graves.
  1. “Pessoas saudáveis não precisam se vacinar”
Mesmo indivíduos sem doenças pré-existentes podem desenvolver complicações associadas à influenza, especialmente em contextos de maior circulação do vírus. Além disso, pessoas com quadros leves ou assintomáticos podem atuar como vetores de transmissão. “O problema não é só individual. Uma pessoa saudável pode transmitir o vírus para alguém que está no grupo de risco, e isso pode evoluir para internação ou até óbito”, destaca a enfermeira. Já a médica acrescenta que existem inúmeros estudos comprovando que a vacinação é segura e eficaz inclusive em indivíduos saudáveis, especialmente na prevenção de formas graves da doença. “Além disso, a cobertura vacinal reduz a circulação do vírus, protegendo os grupos mais vulneráveis que são idosos, imunossuprimidos, cardiopatas e crianças pequenas”, pontua.
  1. “A vacina não funciona porque ainda há casos de gripe”
A vacina contra influenza não impede completamente a infecção, mas reduz de forma significativa o risco de evolução para quadros graves, hospitalizações e mortes. Em um cenário em que a influenza A já responde por mais de 70% dos óbitos por SRAG, esse efeito é determinante.

Estudos epidemiológicos como esse mostram que a vacinação contribui diretamente para a redução da mortalidade, especialmente entre idosos e crianças, grupos mais afetados no atual cenário brasileiro.

De acordo com Cláudia Coeli, crianças pequenas merecem atenção especial, já que possuem o sistema imunológico ainda em amadurecimento e características anatômicas que favorecem quadros respiratórios mais graves. “As infecções respiratórias e inclusive a influenza são causa importante de internação e até de óbito em crianças pequenas”, alerta.

O avanço da influenza como principal causa de mortes por SRAG reforça a importância da vacinação como estratégia central de saúde pública. Em meio à alta circulação viral, ampliar a cobertura vacinal depende não apenas da disponibilidade de doses, mas da capacidade de enfrentar a desinformação e aproximar a população de evidências científicas já consolidadas.
 

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JOãO PEDRO URBANO DOS SANTOS
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