O silêncio que adoece: O impacto do excesso de estímulos digitais na capacidade de sentir angústia

A incapacidade de ficar "sem fazer nada" está gerando uma geração que não sabe processar o próprio sofrimento. A psicóloga Eliane Alves discute como o uso ininterrupto de telas abafa os sinais que o inconsciente envia, transformando pequenos conflitos em crises de ansiedade generalizada e pânico.

Por Bendita Letra
4 Min

O silêncio que adoece: O impacto do excesso de estímulos digitais na capacidade de sentir angústia
Eliane Alves — Psicóloga | Psicanalista | Especialista em Tratamentos de Ansiedade e Síndrome do Pânico
 


Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), os casos de ansiedade cresceram de forma significativa nos últimos anos, especialmente entre jovens e adultos expostos a rotinas cada vez mais aceleradas e hiperconectadas. Em um cenário dominado por notificações, vídeos curtos e estímulos constantes, muitas pessoas já não conseguem ficar alguns minutos em silêncio ou sem pegar o celular. E esse hábito aparentemente inofensivo tem afetado diretamente a forma como as emoções são vividas e processadas.

Na prática, o excesso de distrações passou a funcionar como uma tentativa automática de evitar desconfortos emocionais. Sempre que surgem tristeza, insegurança, angústia ou sensação de vazio, o impulso imediato costuma ser procurar algo para ocupar a mente. O problema é que aquilo que não é sentido e elaborado emocionalmente não desaparece, apenas fica acumulado.

Com o tempo, esse acúmulo emocional começa a aparecer de outras formas: irritação constante, cansaço mental, dificuldade de concentração, sensação de ansiedade e até crises de pânico. Pequenos conflitos internos, quando ignorados repetidamente, acabam ganhando uma dimensão muito maior.

Segundo a psicóloga  e psicanalista Eliane Alves, especialista em tratamentos de ansiedade e síndrome do pânico, muitas pessoas perderam a capacidade de lidar com pausas e silêncios emocionais. “Hoje existe uma necessidade constante de preencher qualquer espaço vazio com informação, entretenimento ou produtividade. Mas quando a pessoa evita sentir, ela também deixa de compreender aquilo que está acontecendo dentro dela”, explica.

Dentro desse contexto, emoções naturais da vida passam a ser vistas quase como ameaças. Sentir tristeza, frustração, angústia ou solidão virou algo que precisa ser eliminado rapidamente, quando, na verdade, esses sentimentos também funcionam como sinais importantes sobre o que precisa de atenção emocional.

Para Eliane Alves, o corpo e a mente acabam encontrando maneiras de manifestar aquilo que foi ignorado por muito tempo. “Muitas crises emocionais surgem porque a pessoa passou meses ou até mesmo anos tentando não entrar em contato com o próprio sofrimento. Em algum momento, essa sobrecarga aparece, seja através da ansiedade, da exaustão emocional ou de sintomas físicos”, afirma.

O acompanhamento psicológico ajuda o paciente a desenvolver mais consciência sobre as próprias emoções e a construir uma relação mais saudável com sentimentos difíceis. O processo envolve reaprender a desacelerar, tolerar pausas e entender que sentir angústia faz parte da experiência humana.

Em uma sociedade que estimula distração o tempo inteiro, recuperar momentos de silêncio, presença e escuta interna se tornou essencial para preservar a saúde mental. Dentro desse cenário, o desafio atual está em voltar a criar espaço para sentir, refletir e elaborar emoções antes que pequenos sofrimentos silenciosos se transformem em crises mais profundas.


Saiba mais sobre o trabalho da Eliane Alves: @psicologaelianealves

Fonte: Eliane Alves — Psicóloga | Psicanalista | Especialista em Tratamentos de Ansiedade e Síndrome do Pânico



 

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MARIA JULIA HENRIQUES NASCIMENTO
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