Na hora de fazer uma tatuagem, muita gente pensa no traço, na dor e no significado do desenho, mas pouca gente para para avaliar o que já existe na pele antes da agulha entrar em cena. O problema é que tatuar por cima de pintas e manchas pode esconder sinais importantes de alerta e transformar uma alteração visível em um ponto cego para o diagnóstico de câncer de pele.
O risco não está na tatuagem “causar” melanoma diretamente, mas em cobrir uma lesão que deveria ser acompanhada. A Sociedade Brasileira de Dermatologia orienta que pintas presentes na área a ser tatuada sejam avaliadas antes de qualquer procedimento e destaca que alterações como mudança de cor, formato, tamanho, coceira, dor ou sangramento precisam ser analisadas quanto ao risco de malignidade. O INCA também aponta que mudanças em pintas já existentes, assimetria, bordas irregulares e variação de cor estão entre os principais sinais de alerta para o melanoma.
Para o dermatologista Dr. Matheus Rocha, o erro está em tratar a lesão pigmentada como detalhe estético. “Quando uma pinta fica parcial ou totalmente coberta pela tatuagem, você perde a capacidade de observar com clareza se ela mudou. E, em dermatologia, perceber cedo uma alteração faz diferença direta no diagnóstico e no tratamento”, afirma.
Segundo o especialista, esse cuidado vale inclusive quando a pinta parece antiga ou “igual há anos”. “Nem sempre a lesão suspeita chama atenção no começo. Às vezes, a mudança é sutil, progressiva, e a tatuagem cria uma barreira visual que dificulta essa leitura, tanto para o paciente quanto para o médico”, diz.
Além de mascarar sinais suspeitos, a tatuagem também traz riscos próprios. Especialistas alertam para possibilidade de infecções, reações alérgicas, granulomas, quelóides, cicatrizes e contaminação de tintas por microrganismos. Quando isso acontece em uma área que já tinha uma pinta ou mancha sem avaliação prévia, o cenário pode ficar ainda mais confuso, com irritação local, mudança de cor e inflamação misturando sinais do procedimento com possíveis alterações da própria pele.
Na prática, a recomendação é simples: antes de tatuar uma área com pinta, mancha escura ou lesão pigmentada, o ideal é passar por avaliação dermatológica. Isso é ainda mais importante quando o sinal:
Para Rocha, a popularização das tatuagens precisa vir acompanhada de mais consciência sobre segurança cutânea. “A pessoa costuma se preocupar com a esterilização do material, o que é correto, mas muitas vezes esquece de olhar para a própria pele antes do procedimento. Se existe uma pinta no local, ela precisa ser examinada antes de ser escondida”, afirma.
No Brasil, onde o INCA estima cerca de 263 mil novos casos anuais de câncer de pele não melanoma entre 2026 e 2028, além da relevância do melanoma como o tipo mais grave, o cuidado com sinais cutâneos ganha peso ainda maior como medida de saúde pública. Em um cenário de popularização crescente das tatuagens, especialistas defendem que a conversa sobre segurança precisa incluir não só higiene e técnica, mas também avaliação criteriosa da pele antes do procedimento.
Segundo o Dr. Matheus Rocha, a regra é objetiva. “Se há uma pinta, ela não deve ser tatuada por impulso. Primeiro vem a avaliação da pele. Depois, se estiver tudo certo, a decisão estética. Em dermatologia oncológica, enxergar cedo faz toda a diferença”, afirma.
Sobre o especialista
Matheus Rocha é dermatologista com atuação em cirurgia dermatológica e tratamento do câncer de pele. A trajetória na medicina inclui foco em doenças de pele e atenção a fatores sociais que interferem no acesso ao diagnóstico. Também atua na formação de médicos para reconhecimento e manejo de tumores cutâneos.
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PAULO NOVAIS PACHECO
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