A maternidade real: Por que a exaustão da rotina faz tantas mulheres esquecerem quem são para além de serem mães?

A especialista Rose Toledo desmistifica o "instinto materno" e mostra o impacto de viver no limite do esgotamento.

Por Bendita Letra
4 Min

Dra. Roselaine Toledo —  Terapeuta Sistêmica


Segundo dados da pesquisa “Sem Parar 2025”, realizada pelo instituto Think Olga e apoiada pelo Ministério das Mulheres, 57% das brasileiras trabalham mais de 40 horas semanais, enquanto 60% relatam cansaço e dores físicas relacionados à sobrecarga de trabalho e aos cuidados com a casa. O cenário evidencia uma realidade silenciosa: muitas mulheres vivem em um estado contínuo de exaustão, tentando equilibrar maternidade, carreira, relacionamentos e demandas pessoais sem espaço para si mesmas.

Em meio à rotina acelerada, cresce também um sentimento pouco verbalizado entre mães: a sensação de terem perdido a própria identidade. Entre tarefas, cobranças e responsabilidades constantes, muitas mulheres passam anos ocupando exclusivamente o papel materno, deixando de reconhecer desejos, interesses e necessidades individuais.

A romantização da maternidade contribui diretamente para esse processo. A ideia de que existe um “instinto materno” capaz de sustentar emocionalmente todas as demandas da criação dos filhos faz com que o cansaço, a irritação e o esgotamento sejam frequentemente encarados como fracasso pessoal. Na prática, isso gera culpa e autocrítica, dificultando que muitas mulheres reconheçam seus próprios limites.

Para a terapeuta sistêmica e especialista em Direito Familiar, Roselaine Toledo, a sobrecarga emocional enfrentada por mães vai além das exigências do cotidiano. Segundo ela, existem padrões familiares e sociais que reforçam a ideia de que a mulher deve assumir o papel de cuidadora absoluta, colocando constantemente as necessidades dos outros acima das próprias.

“Existe uma construção cultural que associa o amor materno à renúncia total. Muitas mulheres aprendem, desde cedo, que precisam dar conta de tudo e que olhar para si mesmas é sinal de egoísmo, quando, na verdade, isso compromete diretamente a saúde emocional”, explica.

A visão sistêmica propõe ampliar esse olhar. Em vez de enxergar apenas o esgotamento como um problema isolado, a abordagem busca compreender as dinâmicas familiares e emocionais que levam muitas mulheres a se anularem ao longo da maternidade. Isso inclui reconhecer padrões herdados, cobranças internalizadas e papéis assumidos dentro da estrutura familiar.

Na prática, esse processo ajuda a mulher a reconstruir sua percepção sobre si mesma para além da função materna. Ao compreender que ser mãe não precisa significar abandono da própria individualidade, torna-se possível estabelecer limites mais saudáveis, reorganizar prioridades e construir relações menos baseadas em culpa e sobrecarga.

Especialistas alertam que o esgotamento materno prolongado pode impactar não apenas a saúde mental da mulher, mas também suas relações afetivas, profissionais e familiares. Por isso, discutir a maternidade real — distante das idealizações — tornou-se essencial para compreender os desafios emocionais enfrentados pelas mulheres contemporâneas.

Nesse contexto, o debate sobre saúde emocional materna ganha força ao propor uma reflexão mais profunda sobre o papel da mulher dentro da família e da sociedade. Mais do que dar conta de tudo, a discussão passa a envolver a possibilidade de existir para além da maternidade, sem culpa e sem anulação.
Saiba mais sobre o trabalho da Dra. Rose Toledo: @roselaine.toledo
Fonte: Dra. Roselaine Toledo —  Terapeuta Sistêmica | Especialista em Direito de Família

 

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