Dia Mundial sem Tabaco: avanço histórico do Brasil perde força e acende alerta para retrocesso no combate ao fumo
Divulgação
Dia Mundial sem Tabaco: avanço histórico do Brasil perde força e acende alerta para retrocesso no combate ao fumo
Por Dr. Ubiratan de Paula Santos, pneumologista do InCor-HCFMUSP
O Brasil foi, durante décadas, referência mundial no combate ao tabagismo. Entre 1989 e 2020, o país reduziu em 74% a prevalência de fumantes, um dos resultados mais expressivos já registrados globalmente em políticas de saúde pública. Agora, porém, esse avanço histórico começa a perder força. Após anos de queda contínua, os índices nacionais deixaram de cair e apresentaram oscilação para cima, entre 2023 e 2025. O movimento representa um sinal preocupante de retrocesso.
O cigarro continua sendo o terceiro principal fator de risco para mortes globais, responsável por mais de sete milhões de óbitos por ano -- atrás apenas da hipertensão arterial e da poluição do ar. Neste Dia Mundial sem Tabaco, celebrado em 31 de maio pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil precisa encarar uma realidade incômoda: as estratégias que fizeram do país um modelo internacional perderam intensidade justamente no momento em que a indústria da nicotina reorganiza sua ofensiva, impulsionada pelos cigarros eletrônicos e dispositivos aquecidos.
A experiência internacional serve de alerta. Recentemente, o Reino Unido aprovou uma legislação que proíbe a venda de produtos de tabaco e vapes para pessoas nascidas a partir de 2009. A medida radical evidencia a tentativa de conter uma nova geração dependente de nicotina.
O paradoxo é que o próprio país contribuiu para esse cenário ao flexibilizar sua política anos atrás. O National Health Service (NHS) britânico passou a recomendar cigarros eletrônicos como ferramenta de cessação do tabagismo, contrariando sociedades médicas e apoiando-se em evidências frágeis. O resultado foi o crescimento acelerado do consumo de vapes e do chamado “uso dual” — quando o indivíduo mantém simultaneamente o cigarro convencional e o eletrônico —, elevando novamente a prevalência total
de fumantes.
A principal beneficiada foi a própria indústria do tabaco, que hoje controla tanto o mercado tradicional quanto o de dispositivos eletrônicos. O caso britânico demonstra que a substituição da nicotina por novas formas de consumo não elimina a dependência: apenas amplia mercados e prolonga o ciclo de usuários.
No Brasil, apesar da proibição determinada pela Anvisa, os cigarros eletrônicos já estão amplamente disseminados no mercado ilegal. São comercializados livremente em plataformas digitais, aplicativos de entrega e pontos físicos, muitas vezes sem qualquer tipo de fiscalização. O impacto dessa expansão já aparece nas estatísticas: a tendência histórica de redução do tabagismo, sustentada desde os anos 1990, perdeu força.
Nesse contexto, propostas para direcionar fumantes brasileiros aos dispositivos eletrônicos representam um grave risco à saúde pública. Em entrevista recente à Folha de S. Paulo, o diretor-geral da Philip Morris International defendeu abertamente essa estratégia, ignorando deliberadamente o que ocorreu em países onde o vape foi estimulado: o aumento do consumo de nicotina e a recuperação das taxas de tabagismo.
O Brasil não precisa importar erros internacionais. Antes de discutir medidas extremas, como o banimento geracional adotado pelos britânicos, o país precisa cumprir integralmente as diretrizes da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT) da OMS, da qual é signatário desde 2003.
Para reduzir a prevalência de fumantes a menos de 5% até 2050, é indispensável retomar políticas rigorosas de fiscalização e controle. Isso inclui bloquear efetivamente o comércio ilegal de cigarros eletrônicos e produtos aquecidos, responsabilizando plataformas digitais, aplicativos de entrega e estabelecimentos que comercializam esses dispositivos.
Também é urgente combater a venda de cigarros avulsos em bares, padarias e pequenos comércios — prática que facilita o acesso de crianças e adolescentes ao tabaco — e ampliar o enfrentamento ao contrabando nas fronteiras e no litoral, impedindo a entrada de cigarros ilegais vendidos a preços extremamente baixos.
Outra medida decisiva é consolidar a proibição total de aditivos, sabores e aromas que mascaram o gosto do tabaco e tornam o consumo mais atrativo, especialmente entre jovens. Ao mesmo tempo, o país precisa reduzir a presença do cigarro em conteúdos culturais e digitais, evitando a associação do fumo a status, comportamento aspiracional ou glamour.
A retomada do controle do tabagismo também exige campanhas educativas permanentes, integradas às escolas, universidades e serviços de saúde, além do fortalecimento da assistência oferecida pelo SUS aos fumantes que desejam abandonar a dependência.
Garantir regularidade no fornecimento de tratamentos e ampliar o acesso a terapias eficazes deve ser prioridade. Isso inclui estimular a produção pública de adesivos e gomas de nicotina, além de medicamentos como bupropiona, vareniclina e citisina, reduzindo custos e ampliando o alcance do tratamento.
Os dados são inequívocos: tratar o tabagismo custa apenas uma fração do que o sistema público de saúde gasta com câncer, infartos, AVCs e doenças respiratórias relacionadas ao cigarro.
Neste Dia Mundial sem Tabaco, o Brasil precisa decidir se pretende preservar o protagonismo internacional conquistado ao longo de décadas ou permitir que novas estratégias da indústria da nicotina comprometam um dos maiores sucessos da saúde pública brasileira.
Por Dr. Ubiratan de Paula Santos, pneumologista do InCor-HCFMUSP
O Brasil foi, durante décadas, referência mundial no combate ao tabagismo. Entre 1989 e 2020, o país reduziu em 74% a prevalência de fumantes, um dos resultados mais expressivos já registrados globalmente em políticas de saúde pública. Agora, porém, esse avanço histórico começa a perder força. Após anos de queda contínua, os índices nacionais deixaram de cair e apresentaram oscilação para cima, entre 2023 e 2025. O movimento representa um sinal preocupante de retrocesso.
O cigarro continua sendo o terceiro principal fator de risco para mortes globais, responsável por mais de sete milhões de óbitos por ano -- atrás apenas da hipertensão arterial e da poluição do ar. Neste Dia Mundial sem Tabaco, celebrado em 31 de maio pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil precisa encarar uma realidade incômoda: as estratégias que fizeram do país um modelo internacional perderam intensidade justamente no momento em que a indústria da nicotina reorganiza sua ofensiva, impulsionada pelos cigarros eletrônicos e dispositivos aquecidos.
A experiência internacional serve de alerta. Recentemente, o Reino Unido aprovou uma legislação que proíbe a venda de produtos de tabaco e vapes para pessoas nascidas a partir de 2009. A medida radical evidencia a tentativa de conter uma nova geração dependente de nicotina.
O paradoxo é que o próprio país contribuiu para esse cenário ao flexibilizar sua política anos atrás. O National Health Service (NHS) britânico passou a recomendar cigarros eletrônicos como ferramenta de cessação do tabagismo, contrariando sociedades médicas e apoiando-se em evidências frágeis. O resultado foi o crescimento acelerado do consumo de vapes e do chamado “uso dual” — quando o indivíduo mantém simultaneamente o cigarro convencional e o eletrônico —, elevando novamente a prevalência total
de fumantes.
A principal beneficiada foi a própria indústria do tabaco, que hoje controla tanto o mercado tradicional quanto o de dispositivos eletrônicos. O caso britânico demonstra que a substituição da nicotina por novas formas de consumo não elimina a dependência: apenas amplia mercados e prolonga o ciclo de usuários.
No Brasil, apesar da proibição determinada pela Anvisa, os cigarros eletrônicos já estão amplamente disseminados no mercado ilegal. São comercializados livremente em plataformas digitais, aplicativos de entrega e pontos físicos, muitas vezes sem qualquer tipo de fiscalização. O impacto dessa expansão já aparece nas estatísticas: a tendência histórica de redução do tabagismo, sustentada desde os anos 1990, perdeu força.
Nesse contexto, propostas para direcionar fumantes brasileiros aos dispositivos eletrônicos representam um grave risco à saúde pública. Em entrevista recente à Folha de S. Paulo, o diretor-geral da Philip Morris International defendeu abertamente essa estratégia, ignorando deliberadamente o que ocorreu em países onde o vape foi estimulado: o aumento do consumo de nicotina e a recuperação das taxas de tabagismo.
O Brasil não precisa importar erros internacionais. Antes de discutir medidas extremas, como o banimento geracional adotado pelos britânicos, o país precisa cumprir integralmente as diretrizes da Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco (CQCT) da OMS, da qual é signatário desde 2003.
Para reduzir a prevalência de fumantes a menos de 5% até 2050, é indispensável retomar políticas rigorosas de fiscalização e controle. Isso inclui bloquear efetivamente o comércio ilegal de cigarros eletrônicos e produtos aquecidos, responsabilizando plataformas digitais, aplicativos de entrega e estabelecimentos que comercializam esses dispositivos.
Também é urgente combater a venda de cigarros avulsos em bares, padarias e pequenos comércios — prática que facilita o acesso de crianças e adolescentes ao tabaco — e ampliar o enfrentamento ao contrabando nas fronteiras e no litoral, impedindo a entrada de cigarros ilegais vendidos a preços extremamente baixos.
Outra medida decisiva é consolidar a proibição total de aditivos, sabores e aromas que mascaram o gosto do tabaco e tornam o consumo mais atrativo, especialmente entre jovens. Ao mesmo tempo, o país precisa reduzir a presença do cigarro em conteúdos culturais e digitais, evitando a associação do fumo a status, comportamento aspiracional ou glamour.
A retomada do controle do tabagismo também exige campanhas educativas permanentes, integradas às escolas, universidades e serviços de saúde, além do fortalecimento da assistência oferecida pelo SUS aos fumantes que desejam abandonar a dependência.
Garantir regularidade no fornecimento de tratamentos e ampliar o acesso a terapias eficazes deve ser prioridade. Isso inclui estimular a produção pública de adesivos e gomas de nicotina, além de medicamentos como bupropiona, vareniclina e citisina, reduzindo custos e ampliando o alcance do tratamento.
Os dados são inequívocos: tratar o tabagismo custa apenas uma fração do que o sistema público de saúde gasta com câncer, infartos, AVCs e doenças respiratórias relacionadas ao cigarro.
Neste Dia Mundial sem Tabaco, o Brasil precisa decidir se pretende preservar o protagonismo internacional conquistado ao longo de décadas ou permitir que novas estratégias da indústria da nicotina comprometam um dos maiores sucessos da saúde pública brasileira.
Notícia distribuída pela saladanoticia.com.br. A Plataforma e Veículo não são responsáveis pelo conteúdo publicado, estes são assumidos pelo Autor(a): MARIA DO ROSARIO GUIRRO
rose.guirro@gbr.com.br