Hantavirose não é novidade: prevenção e importância do diagnóstico precoce
A doença, com quase 40% de mortalidade, é endêmica e sempre circulou em terras brasileiras
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A hantavirose é uma zoonose transmitida principalmente por roedores silvestres e, no Brasil, costuma manifestar‑se como Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus (SCPH), que pode evoluir rapidamente para insuficiência respiratória grave. Historicamente, a taxa de letalidade no país é elevada — em torno de 38% — embora dados recentes mostrem tendência de queda: em 2025 foram registrados 35 casos e 15 óbitos; em 2026, até abril, havia 7 casos confirmados e 1 morte. No cenário internacional, a Organização Mundial da Saúde voltou a monitorar o vírus após um surto ligado a um cruzeiro em maio de 2026, com casos associados ao navio MV Hondius.
O que fazer ao retornar de área rural e apresentar febre e mal‑estar
A orientação é sempre buscar atendimento médico e contar toda história clínica em detalhes. Segundo a médica Aliã Siqueira Vieira, médica especializada em condições de saúde que acometem viajantes e integrante da plataforma de consultas médicas INKI, muitos pacientes não mencionam viagens recentes durante a consulta e sem essa informação a hantavirose raramente é suspeitada — o que pode atrasar intervenções essenciais. “Para quem tem suspeita do diagnóstico, é igualmente importante evitar automedicação e buscar atendimento médico imediato diante de sinais de alerta, como falta de ar, dor abdominal intensa, vômitos persistentes, manchas no corpo ou sangramentos, tontura, queda da pressão arterial, taquicardia ou redução do volume urinário”, ressalta.
Informações sobre a viagem que ajudam no diagnóstico
A médica ainda reforça que para facilitar a suspeita clínica, o paciente deve relatar ao médico detalhes da viagem: presença em área rural, trilhas, acampamentos, fazendas, alojamentos fechados, galpões antigos ou locais com sinais de roedores; limpeza de ambientes fechados; exposição a poeira em locais pouco ventilados; contato com fezes ou urina de ratos; armazenamento inadequado de alimentos; e circulação em mata ou celeiros. “O intervalo entre a exposição e o início dos sintomas também é informação crítica: a hantavirose tem período de incubação longo — entre 5 e 50 dias, com média de duas a quatro semanas — por isso sintomas surgidos dias ou semanas após a viagem devem ser investigados”, explica.
Sinais de gravidade durante a viagem
Se os sintomas surgirem enquanto a pessoa ainda está viajando, devem motivar busca imediata por atendimento de urgência sinais como falta de ar progressiva, tosse seca intensa, tontura ou desmaio, vômitos persistentes, dor abdominal intensa, sangramentos ou manchas na pele, e redução do volume urinário. Esses sinais podem indicar evolução para comprometimento cardiopulmonar e hemodinâmico. Em caso de suspeita sem sinais de gravidade, uma teleconsulta com médico brasileiro resolve mais de 90% dos casos.
O que não fazer ao limpar locais com sinais de roedores
Ao lidar com casas, galpões, barracas ou depósitos com fezes ou urina de roedores, não varrer a seco nem usar métodos que levantem poeira. Recomenda‑se arejar o ambiente antes da limpeza e utilizar pano úmido ou desinfetante; usar máscara e luvas ao limpar locais potencialmente contaminados; vedar frestas e armazenar alimentos adequadamente; e evitar contato direto com roedores vivos ou mortos. Essas medidas reduzem o risco de inalação de partículas contaminadas, principal via de transmissão.
Transmissão, sintomas e manejo
A transmissão ocorre principalmente pela inalação de partículas de urina, fezes ou saliva de roedores em ambientes fechados e pouco ventilados; também pode ocorrer por contato direto com secreções ou mordidas, ou por levar mãos contaminadas ao rosto. “A transmissão entre humanos é extremamente rara e, até o momento, restrita a variantes específicas registradas na América do Sul”, relata Aliã. Segundo a médica, os sintomas iniciais são inespecíficos — febre, dor no corpo, cefaleia, náuseas, vômitos e dor abdominal — e podem evoluir para quadro grave com falta de ar, queda de pressão e comprometimento renal. Não existe antiviral específico; o tratamento é de suporte hospitalar, com monitoramento, suporte respiratório, controle hemodinâmico, hidratação e, quando necessário, diálise.
O Brasil registra, em média, cerca de 45 casos de hantavirose por ano, segundo dados dos últimos cinco anos. Desde o início da série histórica, em 1993, o pico de infecções ocorreu em 2006, quando 186 pessoas foram diagnosticadas com a doença. O mesmo ano também concentrou o maior número de mortes: 71 óbitos, enquanto a média recente é de aproximadamente 15 por ano.
Um levantamento do Ministério da Saúde referente ao período de 2007 a 2025 mostra que a doença atinge majoritariamente homens de 20 a 49 anos, que representam 76% dos casos. A zona rural concentra 81% das infecções, e 93% dos pacientes precisaram de hospitalização. A taxa de letalidade no período é considerada alta: 41%, o que significa que quase metade dos infectados não resistiu.
Os dados também revelam os principais fatores de risco. Mais de 70% das pessoas acometidas atuavam em atividades rurais. Em 45% dos registros houve contato direto com roedores, transmissores do hantavírus. Outros 45% envolveram exposição a desmatamento ou aragem da terra, e 53% estavam relacionados à limpeza de galpões ou depósitos, ambientes propícios à presença dos animais.
Prevenção
Embora rara, a hantavirose é de alta gravidade. A prevenção passa por medidas simples e eficazes: manter ambientes limpos e ventilados, armazenar alimentos de forma segura, vedar pontos de entrada de roedores, evitar limpeza a seco de locais com sinais de infestação e usar equipamentos de proteção ao manipular áreas potencialmente contaminadas. “Relatar a exposição rural ao médico é tão importante quanto descrever os sintomas. O contexto epidemiológico muda completamente a conduta clínica e pode ser determinante para o prognóstico”, finaliza Aliã.
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