Estudantes de escola pública criam bioplástico que vira planta após o descarte 

Projeto desenvolvido em escola de tempo integral no interior do Paraná transforma resíduos de milho em um material biodegradável capaz de substituir o plástico e contribuir para a arborização urbana

Por AMOTARA AGêNCIA DE NOTíCIAS
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créditos: Divulgação

Se todo plástico descartado pudesse gerar vida em vez de poluir o planeta, como seriam nossas cidades? A pergunta, que parece saída de um laboratório futurista, ganhou forma nas mãos de três estudantes do Colégio Estadual Barbosa Ferraz, escola pública de tempo integral, em Andirá, no Paraná. Inquietos com a montanha de lixo plástico acumulada na própria cidade, eles transformaram um resíduo do beneficiamento do milho em um bioplástico biodegradável que, depois de usado, pode ser plantado e se tornar uma nova planta. 

O material desenvolvido por Laritiely Ribeiro da Silva, Mariana da Silva Romão e Kauan Vinícius Jurado Azevedo, sob orientação da professora Karoline de Azevedo Ferreira Rodrigues, abre caminho para uma alternativa sustentável ao plástico comum e já inspira novos usos na comunidade. A iniciativa marca o primeiro passo de um projeto que une ciência, impacto ambiental e protagonismo juvenil, e que agora avança para a prototipagem de capas descartáveis para salões de beleza e barbearias. 

Da indignação à ciência: um resíduo que virou solução 

A virada começou no dia em que os estudantes visitaram a cooperativa de reciclagem da cidade. Ao verem o volume de plástico acumulado, perceberam que um problema global também tinha escala local. “Nossa cidade é pequena e descarta muito plástico. Se aqui já é assim, imagine o mundo inteiro?”, relembra Laritiely, que conduziu boa parte dos experimentos. 

A professora Karoline conta que a inquietação não passou despercebida. “Eles ficaram impressionados ao ver aquela montanha de lixo. A partir dali, começaram a questionar por que produzimos tanto e como aquilo poderia ser reduzido.” Coordenado por ela, o Clube de Ciências Inovar acontece em uma eletiva e virou o ambiente ideal para transformar a indignação em investigação científica. 

A primeira fase do projeto utilizou amido de arroz descartado da merenda escolar. Porém, a presença de temperos dificultou a flexibilidade do material. A solução surgiu quando descobriram que a Cooperativa Integrada descartava amido de milho durante o beneficiamento dos grãos, um resíduo puro, abundante e de baixo custo. “A parceria uniu necessidade e oportunidade. Eles precisavam de amido, e a cooperativa o descartava”, explica a professora. 

79 testes até a primeira placa de bioplástico 

Com a nova matéria-prima, os estudantes iniciaram uma sequência intensa de experimentações. Foram 79 testes, ajustando proporções de amido, água, vinagre, glicerina e ágar. “Quando o teste 78 deu errado, eu chorei. Estava cansada”, conta Laritiely. “Mas no 79, finalmente conseguimos a placa perfeita. Eu não sabia se sorria ou se chorava.” 

Os testes avaliaram resistência ao calor, contato com água, decomposição no solo e integração com sementes. A terceira formulação apresentou melhor desempenho: flexível, translúcida e resistente, características similares às do plástico convencional, mas com degradação segura no meio ambiente. 

Kauan destaca o aprendizado ao longo da trajetória: “Com o tempo, você vai desenvolvendo oratória, senso crítico e vai entendendo que realmente consegue realizar coisas grandes.” Para Mariana, o processo foi decisivo para superar barreiras pessoais. “Eu era muito tímida para apresentar. Hoje eu consigo explicar o projeto, registrar tudo e até gravar vídeos.” 

Plástico que se planta: uma inovação para o cotidiano 

A partir da melhor amostra, o grupo criou um protótipo de capa descartável para salões de beleza e barbearias, produto com alto volume de descarte e difícil reciclagem. O diferencial está nas sementes incorporadas ao material: girassol, feijão, tomate ou plantas ornamentais que germinam após o uso. “A pessoa utiliza a capa, leva para casa e planta. É ciência devolvendo vida ao ambiente”, afirma a professora Karoline. O protótipo também resistiu a testes com água oxigenada, tinturas e calor do secador, demonstrando aplicação real e segurança. 

O projeto, batizado de BIOPROTECT, já foi apresentado em sete feiras científicas e premiado na Feira de Cultura Científica Paraná Faz Ciência (FECCI), em Curitiba. Para os estudantes, a validação externa foi decisiva. “Ver nosso trabalho reconhecido deu força para continuar”, diz Kauan. 

Agora, o grupo avança para uma fase técnica de aperfeiçoamento. Em parceria com profissionais da Cooperativa Integrada, busca reduzir custos, especialmente substituindo o ágar, além de avaliar a viabilidade de escala do bioplástico. 

Sobre a Educação em Tempo Integral 

A Educação em Tempo Integral é uma proposta pedagógica multidimensional, moderna, nacional, pública e gratuita. A partir de uma oferta de educação que se conecta à realidade dos jovens e ao desenvolvimento de suas competências cognitivas e socioemocionais, propõe a formação integral dos estudantes. Trabalha pilares como projeto de vida, aprendizado na prática, protagonismo juvenil, acolhimento, orientação de estudos e eletivas, que promovem a formação completa do estudante junto aos componentes curriculares já previstos na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) e nos componentes curriculares da formação diversificada. O modelo está presente em cerca de 6 mil escolas em todo o país, beneficiando mais de 1 milhão de estudantes. 

 

 


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