Esclerose múltipla: doença desafia diagnóstico por apresentar sintomas diferentes em cada paciente

Fraqueza muscular, alterações visuais, fadiga extrema e formigamentos podem surgir de forma isolada e desaparecer temporariamente, o que dificulta a identificação precoce da doença

Por JOãO PEDRO
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Esclerose múltipla: doença desafia diagnóstico por apresentar sintomas diferentes em cada paciente
Divulgação

A esclerose múltipla (EM) é uma doença autoimune crônica que afeta o sistema nervoso central e costuma desafiar pacientes e médicos justamente pela variedade de sintomas e pela imprevisibilidade dos surtos. Alterações na visão, perda de força muscular, dormências, desequilíbrio, fadiga intensa e dificuldades cognitivas podem surgir de maneiras diferentes em cada pessoa e, muitas vezes, desaparecer temporariamente antes do diagnóstico.

No Dia Mundial da Esclerose Múltipla, celebrado em 30 de maio, a data relembra a importância do diagnóstico precoce e do acesso à informação sobre uma condição que afeta cerca de 40 mil brasileiros, segundo dados divulgados pela Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh) em 2025.

Um levantamento publicado também em 2025 na revista científica Brazilian Journal of Health Review, com dados do Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), mostrou crescimento superior a 300% nas internações por esclerose múltipla no Brasil entre 2014 e 2024. O número passou de 1.760 internações em 2014 para 7.651 em 2024, indicando aumento da demanda por diagnóstico, acompanhamento e tratamento especializado.

O médico e professor de pós-graduação em Neurologia da Afya Educação Médica do Rio de Janeiro, Renato Gama, explica que a esclerose múltipla pode demorar a ser identificada porque os sintomas nem sempre aparecem simultaneamente.

“A esclerose múltipla é conhecida justamente por se manifestar de formas muito diferentes entre os pacientes. Algumas pessoas começam com alterações visuais, outras apresentam dormência, desequilíbrio ou fadiga intensa. Muitas vezes os sintomas desaparecem após alguns dias ou semanas, o que leva o paciente a adiar a busca por atendimento”, afirma.

Segundo Renato Gama, a doença ocorre quando o sistema imunológico passa a atacar a bainha de mielina, estrutura que protege os neurônios e permite a condução adequada dos impulsos nervosos.

“Quando essa proteção é danificada, o cérebro passa a ter dificuldade para transmitir informações ao corpo. Isso explica por que os sintomas podem envolver movimento, visão, equilíbrio, sensibilidade e até alterações cognitivas”, explica.

Dados publicados no último ano pelo Ministério da Saúde e pela Ebserh indicam que a esclerose múltipla acomete principalmente mulheres entre 20 e 40 anos, em uma proporção de até três casos femininos para cada caso masculino. O estudo da Brazilian Journal of Health Review também identificou maior incidência de internações entre mulheres e adultos de 30 a 49 anos, faixa considerada a mais ativa da vida profissional e pessoal.

Outro desafio da doença envolve justamente o caráter intermitente dos surtos. Informações divulgadas pelo Ministério da Saúde destacam que muitos pacientes passam anos apresentando sintomas leves e passageiros, como pequenas alterações visuais, formigamentos ou dificuldades urinárias, sem relacionar esses sinais à esclerose múltipla.

“Existe uma falsa sensação de melhora porque o sintoma desaparece temporariamente. Só que a doença continua ativa, causando inflamação e lesões neurológicas silenciosas. Quanto maior o atraso no diagnóstico, maior o risco de sequelas permanentes”, alerta Renato Gama.

O neurologista da Afya Educação Médica destaca que os avanços nos exames de imagem e nos critérios diagnósticos têm permitido identificar a doença mais cedo, especialmente com o uso da ressonância magnética e de exames do líquor.

Apesar de ainda não ter cura, a esclerose múltipla possui tratamentos capazes de reduzir surtos, retardar a progressão da doença e preservar a qualidade de vida dos pacientes.

“Hoje existem medicamentos muito mais eficazes do que há algumas décadas. O diagnóstico precoce faz diferença porque permite iniciar o tratamento antes que ocorram perdas neurológicas irreversíveis. Muitos pacientes conseguem manter rotina ativa, trabalho e qualidade de vida por muitos anos”, conclui Renato Gama.


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JOãO PEDRO URBANO DOS SANTOS
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