Queimadura em casa: os erros nos primeiros minutos que podem agravar a lesão

Pasta de dente, manteiga e gelo estão entre as práticas mais comuns e mais prejudiciais. Especialista explica o que fazer (e o que evitar) logo após o acidente

Por JOãO PEDRO
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O alerta chega no momento certo. Só no período junino de 2025, o Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital da Restauração, no Recife, registrou 70 atendimentos por queimaduras: um aumento de 52% em relação ao mesmo período do ano anterior. Das vítimas, 37 eram crianças. No Rio de Janeiro, hospitais relataram alta de até 40% nos casos durante as festas juninas, com crianças liderando os atendimentos.
Mas os riscos não se limitam às fogueiras e fogos de artifício. Água fervente, óleo quente, vapor, ferro de passar roupa e até o chuveiro são responsáveis por acidentes o ano inteiro. Cerca de 70% dos casos ocorrem dentro de casa, e as crianças e os idosos estão entre as principais vítimas. No Brasil, aproximadamente 70 mil internações por queimaduras são registradas anualmente na rede pública de saúde.
O que muitas vezes agrava esses casos não é apenas a extensão da queimadura, mas o que se faz nos primeiros minutos após o acidente.
"A queimadura continua evoluindo mesmo após o contato com a fonte de calor. O tecido pode sofrer agravamento progressivo nas primeiras horas, o que chamamos de lesão térmica contínua. Por isso, o resfriamento com água corrente em temperatura ambiente não é apenas um cuidado simples: ele interrompe esse processo e pode limitar a profundidade da lesão", explica Orido Pinheiro, médico cirurgião plástico e diretor da Afya Unigranrio Barra da Tijuca.
Receitas caseiras: populares, mas perigosas
Pasta de dente, manteiga, pó de café, clara de ovo e gelo estão entre as soluções mais usadas pela população após uma queimadura. Todas elas são inadequadas e podem piorar o quadro.
"Essas substâncias não têm qualquer benefício comprovado. Em alguns casos, isso pode transformar uma queimadura inicialmente superficial em uma lesão mais complexa, exigindo tratamento cirúrgico", afirma Orido. O gelo merece atenção especial: segundo o Ministério da Saúde, ele pode provocar uma nova agressão ao tecido já lesionado, aprofundando o dano.
O que fazer e o que evitar
Nos primeiros minutos após uma queimadura, a orientação é simples e decisiva:
  • Resfrie a área com água corrente em temperatura ambiente por 10 a 20 minutos
  • Retire anéis, pulseiras, relógios e acessórios que possam comprimir a região com o inchaço
  • Proteja o local com um pano limpo ou gaze
  • Procure avaliação médica se houver dúvida sobre a gravidade
Não faça:
  • Aplicar gelo ou água gelada diretamente na lesão
  • Passar manteiga, pasta de dente, pó de café, clara de ovo ou qualquer substância caseira
  • Usar pomadas sem orientação médica
  • Romper bolhas
  • Cobrir a área com materiais sujos ou que possam aderir à pele
Entendendo os graus de queimadura
Queimaduras de primeiro grau atingem apenas a camada mais superficial da pele. Os sinais são vermelhidão, ardência e dor, sem formação de bolhas.
As de segundo grau alcançam camadas mais profundas e costumam causar bolhas, inchaço e dor intensa. São frequentemente tratadas de forma inadequada em casa.
Já as de terceiro grau comprometem toda a espessura da pele e podem atingir músculos e tendões. A área pode apresentar aspecto esbranquiçado ou escurecido, com perda de sensibilidade.
"Uma queimadura de segundo grau com bolhas, mesmo que não ocupe uma área extensa, merece atenção especial quando atinge mãos, rosto, pés, genitais ou articulações. São regiões com funções importantes e maior risco de sequelas", destaca o especialista.
Quando ir ao pronto-socorro
Nem toda queimadura exige internação, mas algumas situações pedem avaliação médica imediata:
  • Bolhas extensas ou em regiões sensíveis (rosto, mãos, pés, genitais, articulações)
  • Queimaduras elétricas ou químicas
  • Lesões causadas por incêndios
  • Áreas esbranquiçadas, escurecidas ou sem sensibilidade
  • Crianças pequenas, idosos ou pessoas com doenças crônicas
  • Dor intensa ou sinais de infecção (pus, aumento da vermelhidão ao redor da lesão)
Referência no tratamento
Cerca de 70 mil internações por queimaduras são atendidas anualmente pelo SUS. Nos casos mais graves, os pacientes são encaminhados aos Centros de Tratamento de Queimados (CTQs), que contam com equipes multidisciplinares e estrutura especializada.
No Rio de Janeiro, o CTQ do Hospital Federal do Andaraí é uma das principais referências do país. A unidade dispõe de centro cirúrgico especializado, balneoterapia e equipe dedicada à reabilitação. O hospital também forma novos profissionais por meio de programas de ensino e estágios com instituições parceiras, entre elas a Afya Unigranrio.
"As queimaduras não são todas iguais. Mesmo lesões pequenas em áreas como mãos, rosto e articulações podem comprometer função e mobilidade se não forem tratadas corretamente nas primeiras horas. Por isso, a avaliação médica precoce é decisiva para evitar sequelas funcionais e estéticas", conclui Orido Pinheiro.
Em casos graves, acione imediatamente o Samu (192) ou o Corpo de Bombeiros (193).  

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